Alerj homenageia educador José Marmo e discute saúde da população negra

Por Isabela Cabral e Leon Lucius

Em memória ao legado da luta pela construção de políticas públicas em Saúde e Educação por meio dos saberes das religiões de matrizes africanas, o educador e dentista José Marmo da Silva recebeu nesta segunda-feira (25/06) uma Medalha Tiradentes post mortem. A homenagem, solicitada pelo deputado Carlos Minc (PSB), é a maior honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

 

O evento também incluiu um debate sobre a saúde da população negra, promovido pela Comissão de Combate às Discriminações da Casa. Marmo foi fundador da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro) e faleceu no ano passado.

 

“Ele significa tanta coisa que fica difícil resumir. No entanto, ele sempre se destacou na luta contra a intolerância e o racismo”, declarou Minc. O deputado explicou que Marmo defendia a conexão entre as práticas de saúde dos terreiros aos sistemas de saúde formais, atuando através da Renafro pela tolerância religiosa e educação dos povos negros. “Viva José Marmo! Viva a resistência cultural!”, completou.

 

Desde a sua criação, a Renafro realiza uma série de capacitações, seminários e encontros pelo país com o objetivo de potencializar os saberes dos terreiros para as políticas públicas, conscientizando os profissionais sobre os impactos do racismo e da intolerância religiosa no campo da saúde. A Renafro firmou parcerias com a Organização das Nações Unidas e com entidades ligadas, por exemplo, ao cuidado com Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs).

 

“Ele sempre reiterou a urgência de, em todos os lugares em que estivermos, promover a luta contra o racismo e compartilhar a alegria”, contou Fernanda Passos, pesquisadora do Núcleo de Prevenção da AIDS da Universidade de São Paulo (USP), que o conheceu ainda estagiária - a única negra na época. “Pensar nele é pensar na força da vida e na certeza de que precisamos saber o motivo de estarmos no mundo," destacou ela.

 

Cultura Afro-brasileira

 

“O que dizer de Marmo que, na hora de sua partida, confiou em mim para cuidar da sua filha, sua menina dos olhos?”, questionou Mãe Nilce Naira, atual coordenadora da Renafro. “Ele ensinou a entender e respeitar a nossa diversidade. Por todo carinho, acolhimento e estímulo que ele me deu, eu só tenho a agradecer e pedir aos orixás que continuem cuidando dele onde quer que esteja”, disse.

 

A diretora da Anistia Internacional, Jurema Werneck, destacou a importância de se levar o legado de luta de Marmo em meio a “tempos difíceis para o Rio de Janeiro e o Brasil”. “Não é inédito que queiram avançar contra as religiões de matrizes africanas. O nosso espaço vem de longe, não só porque carregamos uma tradição ancestral, mas porque nos articulamos em resistência há muito tempo. Não podemos desistir, não podemos nos distrair”, defendeu.

 

Conforme destacou Jurema, Marmo foi importante para o enfrentamento do racismo e da intolerância religioso e, por outro lado, lutou pela saúde. Foi um dos ativistas que ajudaram a tornar realidade a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. “A gestão pública infelizmente não faz jus à luta do Marmo, não cumpre as medidas que já existem. É isso que falta, colocar em prática na vida das pessoas. A política é bastante didática e fala de três vertentes fundamentais para garantir a saúde da população negra: Primeiro, enfrentar o racismo e seus impactos na saúde; segundo, garantir uma gestão participativa e, por fim, incorporar os conhecimentos das tradições afro-brasileiras, que têm sido fundamentais ao longo de séculos”, explicou.

 

Preconceitos

 

Minc lembrou que as desigualdades e os preconceitos atingem de várias formas a saúde da população negra. “Nas favelas, o número de doenças é muito maior e quem mora lá são majoritariamente pessoas negras; nas prisões, eles também são maioria e morrem mais; existem doenças específicas que são características e não são devidamente estudadas”, enumerou.

 

As estatísticas revelam o tamanho do problema. “Os números dizem muito. São um retrato de nossas vidas e o desrespeito imposto a nós todos os dias. Por exemplo, mais de 3/4 dos que buscam atendimento no SUS são negros”, pontuou Fernanda Lopes, representante do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA).

 

Segundo o Ministério da Saúde, atualmente, 80% da população que só tem o SUS como plano de saúde é negra.De acordo com Cristina Boareto, superintendente de Promoção da Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, a Prefeitura do Rio tem ações que visam melhorar a situação. “Há um trabalho com os profissionais de saúde para um atendimento mais humanizado e com mais atenção à questão. Há uma aproximação dos postos de saúde com os terreiros, para que eles sejam aliados”, disse.

 

A cerimônia foi aberta com louvação aos orixás, entre eles, Oxalá e Oxum e contou também com apresentações musicais. Participaram do encontro pesquisadores, militantes e religiosos.

 

Durante o evento, Minc cedeu a cadeira da presidência à Mãe Meninazinha de Oxum. “É de extrema importância que este espaço seja ocupado por uma pessoa desta natureza”, justificou o deputado.

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